O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 538, inicia sua teologia sobre as tentações de Jesus com o parágrafo abaixo, na qual utilizei como início do meu estudo:

Os evangelhos falam de um tempo de solidão de Jesus no deserto, imediatamente após seu Batismo por João: “Levado pelo Espírito” ao deserto, Jesus fica ali quarenta dias sem comer, vivendo com os animais selvagens e os anjos o servem. No final dessa permanência, Satanás o tenta por três vezes, procurando questionar sua atitude filial para com Deus. Jesus rechaça esses ataques que recapitulam as tentações de Adão no Paraíso e de Israel no deserto, e o Diabo afasta-se dele “até o tempo oportuno” (Lc 4,13)

O primeiro texto que me chamou a atenção foi “Levado pelo Espírito”, o que me mostra como Jesus depois de ter sido ungido pelo Espírito Santo no seu batismo, foi guiado pelo Espírito do Senhor e teve como primeira etapa de sua missão passar por esse período de jejum extremo e tentações.

A descida do Espírito Santo sobre Jesus, que encerra a cena do batismo, institui formalmente 0 seu ministério. A palavra Messias-Cristo significa “o ungido“.

Em Is 11,2 desenvolve-se consequentemente a esperança a respeito de um verdadeiro “Ungido“, cuja “Unção” consiste precisamente em sobre ele descer o Espírito do Senhor: “Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebanho brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e coragem, Espírito de ciência e de temor do Senhor. Ele não julgará pelas aparências, e não decidirá pelo que ouviu dizer; Mas julgará os fracos com equidade , fará justiça aos pobres da terra”.

Segundo o relato de São Lucas, Jesus apresentou-se a si mesmo e à sua missão na Sinagoga de Nazaré com uma citação análoga de Isaías: O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu (Lc 4,18; Is 61,1).

A conclusão da cena do batismo nos diz que Jesus recebeu esta verdadeira “Unção“, que Ele é o Ungido esperado – que a Ele naquela hora foi conferida formalmente, para a história e perante Israel, a dignidade real e a dignidade sacerdotal.

A partir de então Ele está subordinado a esta missão. Os três evangelhos sinópticos contam-nos, para nossa surpresa, que a primeira ordem do Espírito é levá-Lo para o deserto “para aí ser tentado pelo demônio (Mt 4,1).

A missão consiste em descer aos perigos do homem, porque só assim pode o homem caído ser levantado: Jesus deve (isso pertence ao cerne da sua missão) penetrar no drama da existência humana, atravessá-lo até seu último fundo, para encontrar a “ovelha perdida”, colocá-la nos seus ombros e levá-la para casa.

Continuando com o CIC, 0s parágrafos 539 e 540 nos ensinam que:

539: “Os evangelistas assinalam o sentido salvífico desse acontecimento misterioso, Jesus é o novo Adão, que ficou fiel onde o primeiro sucumbiu à tentação. Jesus cumpre à perfeição a vocação de Israel: contrariamente aos que provocaram outrora a Deus durante quarenta anos no deserto, Cristo se revela como o Servo de Deus totalmente obediente à vontade divina. Nisso Jesus é vencedor do Diabo: Ele “amarrou o homem forte” para retomar-lhe a presa. A vitória de Jesus sobre o tentador no deserto antecipa a vitória da Paixão, obediência suprema de seu amor filial ao Pai”.

540: “A tentação de Jesus manifesta a maneira que o Filho de Deus tem de ser Messias – o oposto da que lhe propõe Satanás e que os homens desejam atribuir-lhe. É por isso que Cristo venceu o tentador por nós: “Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado. (Hb 4,15)”.

Ele deve agarra toda a história desde seu início (desde “Adão”), atravessá-la e sofrê-la completamente  para que assim a possa transformar. Especialmente a Epístola dos Hebreus enfatizou que pertence à missão de Jesus, à sua solidariedade conosco antecipadamente representada no batismo, não se negar às ameaças e aos riscos da condição humana: “Por isso deve assemelhar-se em tudo aos seus irmãos, a fim de ser um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus para expiar os pecados do povo. E porque Ele mesmo sofreu e foi tentado é que pode socorrer os que são tentados” (Hb 2,17s). “Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado.” (Hb 4,15).

Mas as “tentações” acompanham todo o caminho de Jesus, e assim a história das tentações aparece – de um modo semelhante ao batismo – como uma antecipação na qual se condensa a luta de todo o caminho.

Agora focando as “tentações” de Jesus no Evangelho de São Marcos, ele pôs em evidência os paralelos com Adão, o intenso sofrimento do drama humano enquanto tal: Jesus “vivia entre as feras e os anjos o serviam“. O deserto – oposto de Jardim – torna-se o lugar da reconciliação e da salvação. É assim restaurada aquela paz que Isaías anuncia para os tempos do Messias: “Então o lobo habita com o cordeiro, a pantera com o cabrito…” (Is 11,6). Onde o pecado é vencido, onde a harmonia do homem com Deus é restaurada, segue-se a reconciliação da natureza, a criação dilacerada transforma-se em lugar de paz.

Nos próximos posts estarei estudando cada uma das três tentações de Jesus individualmente, no entanto, podemos antecipar que o núcleo de toda a tentação é colocar Deus de lado, o qual, junto às questões urgentes de nossa vida, aparece como algo secundário, se não mesmo de supérfluo  e incômodo. Ordenar; construir um mundo de um modo autônomo, sem Deus; reconhecer como realidade apenas as realidades políticas e materiais e deixar de lado Deus, tendo-o como uma ilusão: aqui está a tentação que de muitas formas hoje nos ameaça.

De todas as formas hoje o mundo tenta nos impor um modo de viver e construir nossas vidas sem a presença de Deus, assim temos nós, em resposta à essas enorme tentação, pedir sempre a Graça de Deus e a Luz do Espírito Santo em nós, para que tudo o que fizermos seja guiado e iluminado segunda a vontade do Nosso Pai.

 

Per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso!!

Marco Aurélio

 

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